sexta-feira, 3 de novembro de 2023

A presença gnóstica no mundo moderno

 



 O mundo moderno tem se mostrado cada vez mais próximo de um verdadeiro manicômio, a loucura está generalizada e as pessoas já não se importam com a verdade ou realidade que se apresenta. A verdade é que a era das luzes e o amor incondicionado a razão enlouqueceu o mundo, como diria G. K. Chesterton:

 

"Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça." (...) "A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim."

 

A verdade é que a ciência moderna e todo o conhecimento moderno perece em erros básicos e grosseiros que uma simples volta ao estudo da cosmovisão medieval poderia corrigir. Mas não é este o tema agora. A questão é que o mundo está mergulhado em ideologias e teorias cada vez mais complexas que buscam entender e salvar o homem, e gostaria hoje de explicar uma das raízes disto, o gnosticismo.

Devemos partir do problema principal do qual a gnose se ocupa em responder, que é o sofrimento humano. Eles a viam como uma coisa universalmente disseminada e reconhecível no seio da humanidade, e não há erro nesta percepção. A oração católica "Salve Rainha" já apresenta esta realidade no trecho "A vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas", ou seja, neste mundo o sofrimento é inevitável e todos os homens o conhecem em alguma medida.

No entanto existe uma diferença essencial na forma como o mal se estabeleceu no mundo entre a visão cristã e a visão gnóstica. O cristianismo crê que o episódio da queda é o momento no qual o mal entrou no mundo, ou seja, a sugestão diabólica e a vontade deliberada humana levaram o gênero humano a queda e, portanto, ao estado de sofrimento que nos encontramos. O mal neste caso é fruto, em suma, da ação humana.

Já o gnosticismo entende que o mal, e portanto o sofrimento, decorre da ação maligna de um deus - demiurgo - o criador deste mundo, que nos prendeu neste mundo contrariando a vontade do deus supremo - que é imaculado e puramente espiritual. Este deus supremo não tem contato com este mundo a não ser por meio de seus mensageiros, dos quais recebemos o conhecimento de que o universo inteiro é pura degradação e nunca foi bom, fruto de uma "traição" praticada por um deus menor contra um deus maior. Ou seja o mau é fruto de fatores alheios ao homem.

Creem os gnósticos que os homens preexistiam à esta prisão, ou seja, existíamos em algum plano superior sem mal algum e caímos para este plano no qual fomos aprisionados pelo deus maligno. Com base nestes "conhecimentos" os gnósticos buscam libertar-se desta prisão para voltar ao estado original de puro espírito em um plano superior. Para resolver este problema existem muitas escolas com formas variadas e práticas mais ou menos diferentes, mas em geral a ideia é sempre destruir este mundo, ao menos a auto destruição ou a destruição daquilo que está ao alcance.

Os cátaros, por exemplo, abominavam o casamento e a reprodução, pois consideravam este mundo uma prisão e, portanto, reproduzir e "trazer" mais almas para esta prisão era algo ruim (curiosamente ideia parecida permeia a sociedade moderna).

Importante destacar que ver o mundo como um mal é um exagero e uma grande metonímia, afinal, apesar dos grandes sofrimentos enfrentados pelos homens ainda vemos o bem presente neste mundo, os homens são capazes de fazer boas coisas e é justamente aí que há uma divergência essencial entre o cristianismo e o gnosticismo, pois para o cristão o mundo não é mal,  ele é bom em essência mas o mal está presente nele mas não o comprometendo como um todo.

 

Gnosticismo na tradição de pensamento ocidental

 


A partir do século XVIII podemos notar a influência fortíssima do pensamento gnóstico, começando pela busca de um mal que está para além do ser humano, para além da responsabilidade humana. Jean Jacques Roussau diz que "o homem é bom por natureza, mas a sociedade o corrompe", neste ponto já vemos a inversão do pensamento cristão, pois o mal não é mais fruto da ação humana, mas se torna fruto de algo alheio ao homem em essência. Émile Durkheim, sob forte influência do pensamento comteano, cria a aquilo que conhecemos hoje por sociologia com o estudo daquilo que denominou de fatos sociais, sob duas características: eles são externos ao indivíduo e possuem poder coercitivo sobre o indivíduo (por exemplo o poder da lei).

No entanto o que fica obscuro ou relegado é que as leis, por exemplo, são frutos da ação humana acumuladas ao longo do tempo, ou seja, em última análise é fruto da vontade humana. Não são fatores externos e alheios aos homens, mas decorrem deles e de suas ações. Portanto não existe uma força extra humana que nos força o mal, mas há sim uma força extra humana que nos sugere o mal.

O problema aqui é que as leis humanas, sejam de ordem moral, legal, costumeira e etc, todas decorrem da vontade de um ou mais indivíduos, que acumuladas no decorrer do tempo foram se complexificando, mas sempre decorrente da vontade de sujeitos reais. Tomemos por exemplo o código de Hamurabi, ele surgiu em decorrência da vontade de alguém (provavelmente o próprio rei Hamurabi) e este códice influenciou outros sistemas legais e por ai vai.

Importante destacar que entre os homens é possível perceber uma diferença de poder abissal, muito diferente do que ocorre entre os animais. Um tigre pode ser mais forte que outro tigre, no entanto, ele não pode vencer dez tigres de uma vez. Entre os homens isto é possível e ocorre sempre, um único juiz pode prender milhares de homens, um ditador pode dizimar uma população inteira. A própria beleza feminina pode ser tida como uma espécie de poder, a mulher dotada de mais beleza tem muito mais poder e influência sobre os indivíduos do que aquela tida como feia.

Karl Marx, por exemplo, acredita que existe uma dialética histórica que funciona e age por si, "existe a natureza material, as necessidades humanas que precisam ser atendidas e em função das quais o homem transforma o ambiente natural, segundo Marx o homem se humaniza neste processo. Dito em outras palavras a natureza humana é fruto do trabalho exercido em cima da natureza. Este jogo é inescapável e coercitivo.

Podemos ver retrato semelhante nos estudos de Sigmund Freud que em suma nos diz que tudo que nos acontece é fruto de uma estrutura psíquica que nos foi imposta (id, ego e super ego).

Kant diz que só podemos conhecer aquilo que é coproporcional à nossa estrutura cognitiva, assim como há certas vibrações sonoras que nós não captamos e um cachorro capta. Ou seja, o homem está solto em um universo que lhe é inacessível.

Nestes exemplos vemos que tudo que ocorre é fruto de uma imposição externa, são fatores determinantes que escapam à vontade humana, e isto faz com que os homens modernos alimentem a revolta gnóstica, tal qual os antigos hereges, pois o homem ai está preso dentro de um mundo infernal (sociedade, linguagens, estruturas mentais, estruturas de conhecimento e etc.).

Isso dissolve a responsabilidade e vontade individual pois tudo decorre de fatores alheios ao homem. Deste pensamento, por exemplo, decorre a ideia de que os crimes são causados pela pobreza ou forças sociais e não pela decisão concreta de um homem que decidiu praticar o crime. Neste mesmo caminho vamos ver políticas públicas, debates acadêmicos e agendas internacionais, todos uníssonos em estudar e tratar problemas inexistentes ou, ao menos, enfocados de maneira errônea.

Fica claro, portanto, que o gnosticismo é a grande "força secreta" do mundo moderno. A cosmovisão do homem moderno está eivada deste pensamento, as ideologias modernas, linguagem neutra, decisões políticas e a própria ciência, tudo está viciado com esta ideia. É uma cosmovisão extremamente pobre que limita a capacidade cognitiva do homem, é a sanha do conhecimento racional que impede o conhecimento real.

 


A primeira adoração

     Hoje, celebramos a Epifania do Senhor, e eu gostaria de fazer uma breve meditação sobre esta passagem do Evangelho. Quando os três reis...