O mundo moderno tem se mostrado cada vez mais próximo de um verdadeiro manicômio, a loucura está generalizada e as pessoas já não se importam com a verdade ou realidade que se apresenta. A verdade é que a era das luzes e o amor incondicionado a razão enlouqueceu o mundo, como diria G. K. Chesterton:
"Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça." (...) "A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim."
A verdade é
que a ciência moderna e todo o conhecimento moderno perece em erros básicos e
grosseiros que uma simples volta ao estudo da cosmovisão medieval poderia
corrigir. Mas não é este o tema agora. A questão é que o mundo está mergulhado
em ideologias e teorias cada vez mais complexas que buscam entender e salvar o
homem, e gostaria hoje de explicar uma das raízes disto, o gnosticismo.
Devemos
partir do problema principal do qual a gnose se ocupa em responder, que é o
sofrimento humano. Eles a viam como uma coisa universalmente disseminada e
reconhecível no seio da humanidade, e não há erro nesta percepção. A oração
católica "Salve Rainha" já apresenta esta realidade no trecho "A
vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas", ou seja, neste
mundo o sofrimento é inevitável e todos os homens o conhecem em alguma medida.
No entanto
existe uma diferença essencial na forma como o mal se estabeleceu no mundo
entre a visão cristã e a visão gnóstica. O cristianismo crê que o episódio da
queda é o momento no qual o mal entrou no mundo, ou seja, a sugestão diabólica
e a vontade deliberada humana levaram o gênero humano a queda e, portanto, ao
estado de sofrimento que nos encontramos. O mal neste caso é fruto, em suma, da
ação humana.
Já o
gnosticismo entende que o mal, e portanto o sofrimento, decorre da ação maligna
de um deus - demiurgo - o criador deste mundo, que nos prendeu neste mundo
contrariando a vontade do deus supremo - que é imaculado e puramente
espiritual. Este deus supremo não tem contato com este mundo a não ser por meio
de seus mensageiros, dos quais recebemos o conhecimento de que o universo
inteiro é pura degradação e nunca foi bom, fruto de uma "traição"
praticada por um deus menor contra um deus maior. Ou seja o mau é fruto de
fatores alheios ao homem.
Creem os
gnósticos que os homens preexistiam à esta prisão, ou seja, existíamos em algum
plano superior sem mal algum e caímos para este plano no qual fomos
aprisionados pelo deus maligno. Com base nestes "conhecimentos" os
gnósticos buscam libertar-se desta prisão para voltar ao estado original de
puro espírito em um plano superior. Para resolver este problema existem muitas
escolas com formas variadas e práticas mais ou menos diferentes, mas em geral a
ideia é sempre destruir este mundo, ao menos a auto destruição ou a destruição
daquilo que está ao alcance.
Os cátaros, por exemplo, abominavam o casamento e a reprodução, pois consideravam este mundo uma prisão e, portanto, reproduzir e "trazer" mais almas para esta prisão era algo ruim (curiosamente ideia parecida permeia a sociedade moderna).
Importante
destacar que ver o mundo como um mal é um exagero e uma grande metonímia,
afinal, apesar dos grandes sofrimentos enfrentados pelos homens ainda vemos o
bem presente neste mundo, os homens são capazes de fazer boas coisas e é
justamente aí que há uma divergência essencial entre o cristianismo e o
gnosticismo, pois para o cristão o mundo não é mal, ele é bom em essência mas o mal está presente
nele mas não o comprometendo como um todo.
Gnosticismo na tradição de pensamento ocidental
A partir do
século XVIII podemos notar a influência fortíssima do pensamento gnóstico,
começando pela busca de um mal que está para além do ser humano, para além da
responsabilidade humana. Jean Jacques Roussau diz que "o homem é bom por
natureza, mas a sociedade o corrompe", neste ponto já vemos a inversão do
pensamento cristão, pois o mal não é mais fruto da ação humana, mas se torna
fruto de algo alheio ao homem em essência. Émile Durkheim, sob forte influência
do pensamento comteano, cria a aquilo que conhecemos hoje por sociologia com o
estudo daquilo que denominou de fatos sociais, sob duas características: eles
são externos ao indivíduo e possuem poder coercitivo sobre o indivíduo (por
exemplo o poder da lei).
No entanto
o que fica obscuro ou relegado é que as leis, por exemplo, são frutos da ação
humana acumuladas ao longo do tempo, ou seja, em última análise é fruto da
vontade humana. Não são fatores externos e alheios aos homens, mas decorrem
deles e de suas ações. Portanto não existe uma força extra humana que nos força
o mal, mas há sim uma força extra humana que nos sugere o mal.
O problema
aqui é que as leis humanas, sejam de ordem moral, legal, costumeira e etc,
todas decorrem da vontade de um ou mais indivíduos, que acumuladas no decorrer
do tempo foram se complexificando, mas sempre decorrente da vontade de sujeitos
reais. Tomemos por exemplo o código de Hamurabi, ele surgiu em decorrência da
vontade de alguém (provavelmente o próprio rei Hamurabi) e este códice
influenciou outros sistemas legais e por ai vai.
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Importante destacar que entre os homens é
possível perceber uma diferença de poder abissal, muito diferente do que
ocorre entre os animais. Um tigre pode ser mais forte que outro tigre, no
entanto, ele não pode vencer dez tigres de uma vez. Entre os homens isto é
possível e ocorre sempre, um único juiz pode prender milhares de homens, um
ditador pode dizimar uma população inteira. A própria beleza feminina pode
ser tida como uma espécie de poder, a mulher dotada de mais beleza tem muito
mais poder e influência sobre os indivíduos do que aquela tida como feia. |
Karl Marx,
por exemplo, acredita que existe uma dialética histórica que funciona e age por
si, "existe a natureza material, as necessidades humanas que precisam ser
atendidas e em função das quais o homem transforma o ambiente natural, segundo
Marx o homem se humaniza neste processo. Dito em outras palavras a natureza
humana é fruto do trabalho exercido em cima da natureza. Este jogo é
inescapável e coercitivo.
Podemos ver
retrato semelhante nos estudos de Sigmund Freud que em suma nos diz que tudo
que nos acontece é fruto de uma estrutura psíquica que nos foi imposta (id, ego
e super ego).
Kant diz
que só podemos conhecer aquilo que é coproporcional à nossa estrutura
cognitiva, assim como há certas vibrações sonoras que nós não captamos e um
cachorro capta. Ou seja, o homem está solto em um universo que lhe é
inacessível.
Nestes
exemplos vemos que tudo que ocorre é fruto de uma imposição externa, são
fatores determinantes que escapam à vontade humana, e isto faz com que os
homens modernos alimentem a revolta gnóstica, tal qual os antigos hereges, pois
o homem ai está preso dentro de um mundo infernal (sociedade, linguagens,
estruturas mentais, estruturas de conhecimento e etc.).
Isso
dissolve a responsabilidade e vontade individual pois tudo decorre de fatores
alheios ao homem. Deste pensamento, por exemplo, decorre a ideia de que os
crimes são causados pela pobreza ou forças sociais e não pela decisão concreta
de um homem que decidiu praticar o crime. Neste mesmo caminho vamos ver
políticas públicas, debates acadêmicos e agendas internacionais, todos
uníssonos em estudar e tratar problemas inexistentes ou, ao menos, enfocados de
maneira errônea.
Fica claro,
portanto, que o gnosticismo é a grande "força secreta" do mundo
moderno. A cosmovisão do homem moderno está eivada deste pensamento, as
ideologias modernas, linguagem neutra, decisões políticas e a própria ciência,
tudo está viciado com esta ideia. É uma cosmovisão extremamente pobre que
limita a capacidade cognitiva do homem, é a sanha do conhecimento racional que
impede o conhecimento real.