sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

“Eu sou a Imaculada Conceição” - Lourdes, França 1854



"Não lhe prometo a felicidade neste mundo, mas lhe prometo no outro”, com esta frase, Nossa Senhora, em sua aparição em Lourdes para a jovem Bernadette, nos faz refletir sobre a nossa vida passageira nesta terra, onde somos chamados a servir e não a sermos servidos. 

No dia 11 de fevereiro de 1854, a pequena Bernadete, juntamente com sua irmã e uma amiga, andavam pelos bosques à procura de gravetos para a lareira. Andaram bastante até chegarem na gruta de Massabielle, local onde Bernadette nunca havia estado. Enquanto as outras meninas atravessaram o rio e adentraram na gruta, Bernadete que se preparava para fazer o mesmo, quando ouviu um barulho, olhou para trás e não viu nada, continuou a se preparar quando ouviu novamente o mesmo barulho, desta vez ela olhou para a gruta, onde viu uma linda senhora toda de branco, seu vestido branco com um cinto azul e uma rosa amarela sobre cada pé. 


Após a primeira aparição, Nossa Senhora aparece mais 17 vezes no mesmo local para Bernadette. Em uma de suas aparições ela se apresenta e diz “Eu sou a Imaculada Conceição”, o que confirmava o dogma proclamado pelo papa Pio IX quatro anos antes. 


Bernadette era uma criança que vinha de uma família muito pobre e por isso teve pouca oportunidade de estudar. A pequena desejava fazer a primeira comunhão, mas devido às dificuldades financeiras dos pais e também à sua saúde muito fragilizada não conseguia participar das aulas de catecismo, mas ela se mantinha firma na sua devoção, e rezava todos os dias o seu rosário, uma das poucas orações que conhecia.


No local onde Nossa Senhora apareceu surgiu uma nascente de água. Aqueles que estavam com alguma enfermidade, cuja a esperança de cura por meios médicos era nula, recorriam para tomar a água que jorrava da fonte e com isso Nossa Senhora lhes concedia a cura. Milhares de pessoas foram curadas com a água desta gruta, com exceção da pequena Bernadette que levou sua doença até o final de sua vida, aos 35 anos. 


Ao ser questionada por que Nossa Senhora não a curou, ela respondeu “Talvez a Santíssima Virgem queira que eu sofra”, assim a menina simples e humilde ofereceu seu sofrimento até o momento de sua morte, a qual recebeu com imensa gratidão, pois como ela havia dito: “Encontrar-me-ei junto ao rochedo que tanto amo” e assim ela foi ao encontro de Nossa amada Mãe e de Seu Filho no Céu. 


Recomendo-lhes que conheçam mais detalhadamente esta história de humildade e amor que resumi acima, pois há muita riqueza que em poucas linhas não é possível transpor, porém a intensão deste artigo foi mostrar como devemos receber essa mensagem. Quando olhamos para a mensagem que Nossa Senhora trouxe vemos que Ela quer nos dar a alegria da vida eterna, mas que para isso precisamos sofrer neste mundo, ao qual estamos somente de passagem. Quando olhamos para uma menina de 13 anos, com pouco estudo e saúde frágil, vemos a grandeza que é servir a Deus, pois quando Bernadette entrega todo o seu sofrimento a Deus, ela nos ensina a “Amar a Deus sobre todas as coisas”.  


Que possamos pedir a Nossa Senhora de Lourdes a sua intercessão para que assim como Santa Bernadette se entregou a Deus, nós possamos também nos entregarmos a Ele para participar da alegria da vida eterna.  


Ora pro nobis, sancta Dei Genitrix. Ut digni efficiamur promissionibus Christi.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

TRIVIUM - A capacidade de pensar

  


    Na idade média, época que os ensinos eram realizados pela Igreja Católica, tinham se muita preocupação com a busca contínua pela verdade, mas para isso era necessário ensinar as crianças a pensarem por si próprias com bases nas informações que recebiam do mundo, e terem a capacidade de distinguir a verdade da mentira, a realidade da fantasia e assim por diante. Tendo essa preocupação, desde a mais tenra idade era iniciado com os jovens a um ensino baseado num método de ensino focado na linguagem, tendo como base os conceitos do grande filósofo grego, Aristóteles. Nasce então o Trívium    

    O Trivium juntamente com o Quadrivium comporta as setes artes liberais, sendo elas Gramática, Retórica e Dialética para o Trivium e Aritmética, Música, Geometria e Astronomia para o Quadrivium, sendo elas necessárias para o desenvolvimento do intelecto do homem.
    Pois bem, neste artigo me limitarei a falar somente sobre o Trivium, deixando o Quadrivium para um outro momento mais oportuno. 

    O Trivium tem por base a gramática, sendo através desta que desenvolvemos a comunicação por meio da linguagem, utilizando da forma correta para que compreendamos corretamente as informações recebidas e que também seja capaz de transmitir a informação desejada de maneira adequada para que seu entendimento seja pleno. Segundo Miriam Joseph em seu livro “O Trivium”, a gramática é “A arte de inventar símbolos e combiná-los para expressar pensamento”. Portanto é a partir da gramática que se entende e é entendido.

    A Retórica tem por sua finalidade absorver as informações recebidas através da gramática e com isso formular a sua ideia, seria a capacidade de organizar seus pensamentos de modo ordenado a fim de utilizar sempre o melhor argumento dentre todos, para que sua fala tenha maior propriedade e seja capaz de argumentar. 

    Por fim temos a Dialética, que utiliza da lógica para comparar se o que está sendo dito é real ou não, ela proporciona a capacidade de pensar e distinguir a realidade, evitando assim a confusão de seus próprios pensamentos, diferenciando os fatos das fantasias que podem surgir.

    Portanto o Trivium é o conjunto de três artes das quais uma completa a outra, sendo a gramática para receber a informação, a retórica para ordenar essas informações, a dialética para identificar a verdade e de volta a gramática para se expressar com sua opinião, formando então o Trivium.  

    Conforme informações acima citadas me questiono o porquê de não utilizar-se este método em nossas escolas. Seria um método antiquado? ou será que não querem que nossos jovens aprendam a pensar sozinhos? Independente do motivo, a não utilização deste método limita as nossas crianças a apenas repetirem como papagaios o que lhes é passado, não tendo a capacidade de pensar sozinhas, podendo futuramente serem influenciadas pela vontade dos que estão ao seu redor. 

    Com isso concluo que nossa base de ensino, da forma em que é moldada atualmente, não nos dá conhecimento suficiente, e muito menos nos ensinam a buscá-lo, tornando limitada nossa capacidade como ser pensante. 


A Vaca Sagrada Getulista

 





Dentre as vacas sagradas mais idolatradas do Brasil se encontra a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), ouse falar mal dela e serás tido como o pior dos hereges e apostatas. Seu surgimento se deu durante a Era Vargas, mais especificamente dentro do Estado Novo, conhecido por sua tirania sem igual na história Brasileira. Nascido da pessoa de Getúlio Vargas em meio à ascensão do fascismo e do nazismo e por estes inspirado, esse período foi o que mais sufocou as liberdades individuais, em nome do corporativismo e coletivismo típico dos estados fascistas.

Vale ressaltar que a CLT não só nasceu em meio a um espectro político de tendências fascistas (1° de maio de 1943), mas sofreu fortíssima influência da Carta del Lavoro, documento pelo qual o Partido Nacional Fascista italiano instituiu as normas que regeriam, naquele Estado, as relações de trabalho.

A deidade da CLT vem dos supostos direitos por ela assegurados aos trabalhadores, sem os quais pereceriam perante os maldosos patrões capitalistas. Tal é o pensamento que permeia o imaginário do meio jurídico pátrio e, até mesmo, o popular.

Soa bem ao trabalhador as garantias que as leis trabalhistas lhe garantem: salário mínimo, representação sindical, delimitação da jornada de trabalho, dentre várias outras garantias. Mas como todo direito, em contrapartida, tem-se o dever, e este fica a cargo dos empregadores (e indiretamente dos empregados), que para manterem um empregado arcam com custos altíssimos.

Ora, se os encargos para manter um empregado são altos é evidente que isto inibi a criação de novas vagas de emprego, gerando desemprego e baixos salários. O imposto sindical obrigatório (que a pouco foi revogado por lei) era uma das características fascistas que permeavam essa carta, retirando do trabalhador a liberdade de decidir se contribuiria com o sindicato ou não. Outra característica que está ligada ao fascismo é o seu caráter coletivista em detrimento do indivíduo na hora da elaboração do contrato, este não possui amplas liberdades de pactuar com o empregador, mas fica restrito àquilo que as leis e os acordos coletivos estabeleceram previamente.

Outro efeito negativo que a CLT gera é a dependência popular do Estado; impulsionada pelos valores marxistas a Justiça do Trabalho e as leis trabalhistas demonizam a figura do empregador, colocando-o como um sujeito intrinsecamente mal, pelo simples fato de ser ele quem, segundo essa corrente ideológica, rouba dos operários aquilo que a estes pertence. Dessa forma o povo cria com o Estado uma relação paternal, em que este os protege dos maus e os sustentam quando precisam (sem, é claro, perceberem que esse sustento é foi feito com seu próprio dinheiro). Isso quando não o fazem de má fé e aceitam condições de trabalhos sabidamente "ilegais" para depois poderem "botar no pau" o empresário que, de boa fé, lhes ofereceu a vaga.

A fim de evidenciar esse caráter marxista ressalto pronunciamento recente de Juízes do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região que afirmaram que a justiça do trabalho é um "poderoso instrumento de distribuição de renda", ou seja, não se trata de dizer de quem é o direito no caso concreto - "dar a cada um o seu " como dizia Ulpiano -, mas sim distribuir riquezas. Isto faz com que a Justiça do Trabalho se torne mais próxima de um tribunal de exceção do que um tribunal de justiça.

Todo esse esquema foi criado para sustentar um Estado corporativista, o Estado Novo. Porém, coincidentemente, o nosso atual sistema político se assemelha muito ao sistema fascista de economia e, por isso, essa legislação lhe cabe muito bem; visto que o Brasil é extremamente interventor no setor privado, seja por meio das agências reguladoras, impostos altíssimos, burocracias exacerbadas, tudo com a finalidade de administrar e controlar, retirando do indivíduo a possibilidade de ação e passando tudo para a esfera coletiva.

No fim o que acontece é que temos uma classe empresária extremamente sufocada com altos impostos, amarradas pelas leis trabalhistas e toda sua burocracia que, levando o empresário ao cansaço, desestimula a geração de empregos e, consequentemente, leva a economia ao fracasso.

Depois de avaliado todo esse contexto, fica a reflexão: de que adianta ter direitos trabalhistas se não há quem os consiga cumprir? Há algo de errado nessa história. Ainda mais se levarmos em conta que as maiores potências econômicas livres do mundo não possuem leis que "garantam" direitos aos trabalhadores de forma semelhante a nossa.

Se a falta de uma CLT fosse tão grande e os patrões capitalistas tão maus, os americanos fugiriam em massa para países onde essas leis existem, porém parece que não é isso que acontece. Até quando esta propaganda da era getulista ainda perdurará em nosso país? Está na hora de alguém começar a matar essas vacas sagradas.

imperum

 



PODER MODERADOR

Quando se fala em Poder Moderador logo vem em mente um poder despótico, totalitário e sem responsabilidade alguma por seus atos, mas é de todo errado analisá-lo desta forma. É desonesto dizer que o Poder Moderador era antidemocrático e retrógrada, sua função era de extrema importância para a democracia, e para esta ele servia de ancora, pois a função do poder moderador era a de velar pela liberdade e democracia e evitar possíveis abusos resultantes de uma falta de virtuosidade do sistema de divisão tripartido dos poderes, e que por sinal seria de grande valia na atual situação política brasileira.

Para entender a finalidade do poder moderador cabe, primeiramente, examinar o funcionamento do sistema tripartido. Distinguido por Aristóteles a existência da divisão dos poderes, que foi mais tarde aperfeiçoada pelo filósofo político Montesquieu após analisada por ele na constituição da Inglaterra, a divisão tem como princípio evitar que o poder seja exercido de forma despótica e que acabasse por vir a ferir a liberdade do cidadão, juntamente com o sistema de freios e contrapesos, pois segundo ele somente poder freia poder, tornando assim todos os poderes autônomos.

Esta divisão consiste em um poder uno que é dividido em três funções, o executivo, legislativo e o judiciário, são os três monopólios do Estado, que são as ferramentas do Estado para a manutenção da ordem social, os poderes (funções) são dados a entes diferentes, para garantir que o poder não se acumule em um ente apenas e este possua poder capaz de ser autoritário e déspota.

Porém, esta divisão dos poderes gera um problema em relação à harmonia dos poderes, pois, um poder não pode efetivamente influir sobre o outro com o intuito de regulá-lo, visto que eles estão engajados de poderes específicos e sua mera influência pode ser considerada como uma atitude autoritária e, portanto insuficiente para proteger a liberdade individual, como expõem o Doutor Braz florentino Henriques de Souza:



Em resumo: ou os três poderes marcham de acordo, ou estão em divergência. No primeiro Caso, eles formarão uma unidade, sua ação será absoluta e soberana, e poderão abusar do poder, tanto quanto um monarca, tanto quanto o povo mesmo. No segundo caso não haverá ação, os conflitos estorvarão o regular andamento dos negócios, o ciúme recíproco dos poderes obstará a que eles se entendam para fazer o bem. Haverá imobilidade ou anarquia. (FLORENTINO, 1864)



Então surge o poder moderador, um poder neutro suprapartidário que tem as características de um poder capaz de regular os demais poderes do Estado de forma a realizar a manutenção da harmonia e unidade entre eles, darem-lhes a força necessária para torná-los um todo orgânico, pois, pela separação dos poderes e sua individualização a unidade é de alguma forma corrompida, e é esta unidade que o poder moderador busca realizar, mediado por um chefe supremo, o Imperador, o qual Ruy Barbosa tratou em um de seus discursos:

“Havia uma sentinela (monarca) vigilante, de cuja severidade todos se temiam a que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade gerais.”(RUY BARBOSA, 1914)

Segundo o artigo 98 da Constituição de 1824 “o poder moderador é a chave de toda a organização política e é delegada privativamente ao Imperador, como chefe supremo da Nação e seu primeiro representante, para que incessantemente vele sobre a manutenção da independência, equilíbrio e harmonia dos mais Poderes políticos”. Este poder não foi criado ou inventado por Dom Pedro I, este poder foi teorizado por Henri-Benjamin Constant de Rebecque, um intelectual francês cujo pensamento serviu de base para o parlamentarismo moderno, este mesmo trata o poder moderador como:


Poder legislativo, executivo e judiciário, são três molas que devem cooperar, cada uma de sua parte, para o movimento geral; mas quando essas molas desconcertadas cruzam-se, chocam-se e estorvam-se mutuamente é necessária uma força que as reponha em seu lugar. Esta força não pode estar em nenhuma dessas molas, porque lhe serviria para destruir as outras, é necessário que ela esteja fora, que seja neutra de alguma sorte, para que sua ação se aplique por toda a parte onde é necessário que seja aplicada, e para que seja preservadora e reparadora sem ser hostil. (CONSTANT, 1968)


A constituição de 1824 define as atribuições do poder moderador em seu artigo 101 e seus respectivos incisos, os quais delimitam a atuação deste poder em relação aos demais, mostrando como ele deve atuar em casos específicos, vale ressaltar que não se trata de um poder ilimitado e dotado de prerrogativas pessoais, o detentor do poder moderador agiria de forma a alcançar o bem da nação, limitado por normas constitucionais. Dentre as prerrogativas que a constituição de 1824 garantia ao poder moderador prerrogativas estavam: nomear senadores, perdoando e moderando as penas impostas aos réus em caso que ele notasse erro no julgamento, prorrogando ou adiando a Assembléia Geral, e dissolvendo a Câmara dos Deputados, nos casos, em que exigir a salvação do Estado convocando imediatamente outra que a substitua e etc..., sempre visando o bem da nação e a soberania.

O Poder moderador era exercido pelo Imperador como chefe de Estado, enquanto o poder executivo era exercido pelo primeiro ministro como chefe de governo, portanto não havia uma concentração do poder executivo e moderador em uma mesma pessoa.

Nota-se, portanto, que finalidade salientada é a de zelar pelo equilíbrio e harmonia dos demais poderes políticos (legislativo, executivo e judiciário), não tinha como natureza dar poderes absolutos ao imperador, existia uma responsabilidade dos atos deste poder para se evitar abusos, quem respondia pelos atos do poder moderador eram os ministros e os conselheiros por seus maus conselhos, como o descrito no artigo 143 da constituição de 1824 “São responsáveis os Conselheiros de Estado pelos conselhos que derem opostos às leis, e ao interesse do Estado, manifestamente dolosos.”, e em face da Lei nº 234 de 23 de Novembro de 1841 em seu artigo 4° diz que “Os Conselheiros de Estado serão responsáveis pelos Conselhos, que derem ao Imperador, opostos á Constituição, e aos interesses do Estado, nos negócios relativos ao exercício do Poder Moderador; devendo ser julgados, em tais casos, pelo Senado, na forma da Lei da responsabilidade dos Ministros de Estado.”, visto a inviolabilidade da pessoa do imperador prevista no artigo 99 da constituição imperial, irresponsabilidade esta necessária para manter o ponto unificador que era o elemento monárquico, como um ente de suprema inspeção. Portanto caso houvesse abuso do poder moderador responderia os conselheiros de estado, se aconselharam mal a coroa, e o ministro que não só aconselhou-a mal, mas incumbiu-se de, por um decreto, que leva a sua referenda, dar à execução o abuso.

Fica, portanto, claro a importância que o poder moderador desempenha, o papel de ser o ponto unificador, e evitar possíveis intromissões dos demais poderes no exercício do outro e de certa forma equilibrar o poder dos partidos políticos.

No Brasil de hoje o que vemos é justamente a intromissão abusiva de um judiciário ativista nos demais poderes, ou seja, um dos poderes está nitidamente tentando destruir os outros, a harmonia se perdeu e não há meios formais de resolver esta situação. É evidente que não se trata apenas de um problema na forma do governo, mas antes um problema de corrupção ideológica por parte da Suprema Corte e demais setores influentes, mas não deixo de notar o quão importante seria a possibilidade de poder desmantelar um esquema de poder como esse por meio do mecanismo tratado anteriormente.

REFERÊNCIAS

MONTESQUIEU.  O Espírito das Leis. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

VASCONCELLOS, Zacharias de Goes e. Da Natureza e Limites do Poder Moderador. Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert, 1862.

SOUZA, Braz Florentino Henriques de. Do Poder Moderador. Brasília, Senado Federal, 1978.

APPIO, Eduardo. Teoria Geral do Estado e da Constituição. Curitiba: Juruá, 2010.

Escravidão, culpa dos próprios africanos?

 




Ao dizer no Roda Vida que a culpa da escravidão era dos próprios africanos, Bolsonaro atraiu para si o ódio de inúmeras pessoas que alegaram ser essa uma afirmação terrível e racista, afinal, como seriam os próprios negros os culpados por essa mazela, contra si mesmos?

Dessa forma resolvi trazer um artigo que escrevi há algum tempo para uma revista jurídica tratando sobre o assunto, transcrevo abaixo o trecho que trata da parte histórica da escravidão moderna e suas raízes. Fiz algumas adaptações no texto afim de melhor se adaptar a este espaço.

HISTÓRICO

A escravidão foi praticada por muitos povos, desde a antiguidade clássica – seja pelos romanos, gregos ou egípcios, porém no ocidente, com o advento do cristianismo e a sua expansão, essa prática foi sendo abandonada – só voltando a aparecer após o iluminismo com a queda da influência da Igreja. Enquanto isso, no mundo árabe essa prática continuava a crescer com o islã, isso, pois a sharia regula a prática da escravização.

As linhas a seguir não se tratam de uma visão apaixonada da história, mas sim da história tal como é, afirmada como tal por grandes e renomados historiadores.

O ISLÃ

O Islã começou escravizando o branco europeu, pois o corão – como regra – só permite a escravização dos infiéis, visto que a Europa era um continente cristão e com eles se envolveram em várias Jihad (guerra religiosa), dessas disputas os perdedores eram transformados em escravos, conforme definia o próprio corão determina. Ainda sobre o homem branco escravizado é interessante ressaltar que a etimologia da palavra “escravo” vem de “eslavo”, pois esses já eram escravizados a muito tempo.

Posteriormente, o ocidente começou a se defender dos ataques e com isso dificultou a conquista de escravos para o mundo árabe. Em vista desse problema os árabes partiram para a África – embora boa parte dos negros fossem muçulmanos, esta contradição foi rapidamente contornada dada as diferenças religiosas entre as várias divisões do Islamismo.

É importante ressaltar aqui que no mundo árabe o racismo era muito maior e mais antigo que no ocidente, pois lá a inferioridade do homem negro já tinha sido imobilizada no tempo e de forma quase irreversível. Isso pode ser provado através das palavras de alguns de seus mais destacados intelectuais.

Ibn Khaldun, historiador tunisino (1332 – 1406), disse que o homem negro não pode ser tratado como ser humano:

Nas regiões mais ao sul só encontramos homens mais próximos dos animais que de um ser inteligente. Eles vivem em lugares selvagens e grutas, comem ervas e grãos crus e, às vezes, comem-se uns aos outros. Não podemos considera-los seres humanos (CARVALHO, 2009).

Al-Abshihi (1388 – 1446) disse o seguinte:

Que pode haver de mais vil, de mais ruim do que os escravos negros? Quanto aos mulatos, seja bom com eles todos os dias de sua vida e de todas as maneiras possíveis, e eles não lhe terão a menos gratidão: será como se você nada tivesse feito por eles. Quanto melhor você os tratar, mais eles se mostrarão insolentes; mas, se você os maltratar, eles te mostrarão humildade e submissão (CARVALHO, 2009).

As crianças eram a “mercadoria” mais procurada entre os negros, visto sua facilidade de reintegração em um novo ambiente. Depois de capturadas, uma parte destas crianças passava por um processo de castração, sendo que nesse processo morriam cerca de 78% das crianças. Essa prática da castração de crianças é um diferencial árabe, não existia essa pratica no ocidente, por exemplo.

O movimento abolicionista surgiu no ocidente e dali se expandiu para o resto do mundo. E o racismo, tal como é denunciado em toda parte, só surgiu na Europa a partir do século XVIII, tal como descreve Olavo de Carvalho em um de seus artigos:

Em contrapartida, teorias que afirmavam a inferioridade racial dos negros não se disseminaram na Europa culta senão a partir do século XVIII […]. Ou seja: Os Europeus de classe letrada tornaram-se racistas quase ao mesmo tempo em que o tráfico declinava e em que eclodiam os movimentos abolicionistas, dos quais não há equivalente no mundo árabe, de vez que a escravidão é permitida pela religião islâmica e ninguém ousaria bater de frente num mandamento corânico (CARVALHO, 2009).

A escravidão no mundo muçulmano, como um todo, durou até o século XX, sendo que esta foi abolida em parte por influência ocidental e em outra pelo fato de que não se envolvem mais em Jihad.

O OCIDENTE

Na entrada da idade média, com a queda do império Romano a escravidão ocidental foi gradualmente sendo abolida, isso se deve ao fato do advento do cristianismo e sua expansão. A cosmovisão medieval, dignificava toda a vida humana, foi nesse período que a mulher passou a ascender socialmente – ao contrário do que alguns dizem -, e foi também nesse período que a escravidão foi, à medida que os povos iam se convertendo, desaparecendo.

A Igreja estendeu os sacramentos aos escravos e em seguida trabalhou arduamente para impor a proibição da escravidão. No século VI, por exemplo, havia uma lei, por influência da igreja, que afirmava que nenhum escravo poderia ser preso caso estivesse em um Altar Católico, caso o fizesse o seu dono deveria pagar uma multa altíssima. A Igreja insistia em pregar àquelas sociedades europeias o quão ultrajante era aos homens a prática da escravidão, visto que pela fé em Jesus Cristo somos todos filhos de Deus.

Entre os cristãos Católicos costuma-se dizer que a idade média foi a primavera da fé, e esta descrição explicita bem a forma pela qual a escravidão foi gradualmente sendo abolida da civilização ocidental, pois a Europa nesse período vivia verdadeiramente a fé cristã.

A abolição da escravidão se deu de forma gradual e orgânica. Com as invasões barbaras, nos séculos IV e V, os proprietários de terras, que possuíam algum recurso, começaram a construir fortificações para se proteger dos bárbaros, nesse sentido, muitos homens que não tinham condições para se defender dessas hordas pediam auxílio e refúgio nas fortificações daqueles proprietários, e com isso, os proprietários faziam um contrato com esses homens para que nos tempos de paz cultivassem a terra e nos tempos de guerra o ajudassem na luta contra as ameaças. Todo esse esquema funcionava de forma natural, visto que era fruto das circunstâncias.

Os servos da gleba, como eram chamados, eram a gradual extirpação da escravidão na Europa, embora o servo ainda não fosse completamente livre ele já possuía direitos e não mais era tratado como mercadoria, como outrora eram os escravos, ele era Homem. Esse regime era um estado intermediário entre a escravidão e a liberdade, como dito acima, fruto das circunstâncias.

ESCRAVIDÃO MODERNA

Com relação ao tráfico negreiro, os Europeus só chegaram à África por volta da metade do século XV, ou seja, séculos depois dos árabes. Sobre isto escreveu o renomado historiador Fernand Braudel (1902 – 1985):

O tráfico negreiro não foi uma invenção diabólica da Europa. Foi o islã, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental, o primeiro a praticar em grande escala o tráfico negreiro (…). O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, nem a escravidão nem o comércio de escravos (BRAUDEL, 1989: 138).

Dessa forma, não foram os portugueses que, adentrando o continente africano, capturava os negros e escravizava-os. Os portugueses se limitavam a comprar os escravos – conduta igualmente má – que os próprios povos africanos escravizavam. Ou seja, os europeus comprando ou não os escravos, eles continuariam sendo escravos, sem liberdade, afinal o próprio continente africano utilizava-se de mão de obra escrava.

A ÁFRICA

Muito antes da chegada dos árabes às terras africanas já era comum a prática da escravidão nessas terras pelos impérios africanos. Com o advento do comércio de escravos para o ocidente as elites africanas viram nisso um vantajoso negócio, afinal sempre tinham à sua mão muitos escravos.

Sobre isso Olavo de Carvalho destacou o seguinte:

A escravidão era norma geral na África muito antes da chegada deles (os árabes), e hoje sabe-se que a maior parte dos escravos capturados eram vendidos no mercado interno, só uma parcela menor sendo levada ao exterior. Quando os apologistas da civilização africana enaltecem os grandes reinos negros de outrora, geralmente se omitem de mencionar que esses Estados (especialmente Benin, Dahomey, Ashanti e Oyo) deveram sua prosperidade ao tráfico de escravos, do qual sua economia dependia por completo. Especialmente o reino de Oyo (CARVALHO, 2009).

Dessa forma fica claro que não foi culpa dos portugueses, ou dos europeus em geral, a existência da escravidão dos negros. Ela já existia por si, entre os próprios africanos. Independentemente dos portugueses terem ido lá buscar escravos ou não os negros continuariam sendo escravizados por pessoas de seu próprio continente e seriam levados para outro lugar, que não o ocidente.

É preciso dizer, afinal leitores com má fé existem aos milhares, que não se trata aqui de eximir a culpa dos portugueses na escravidão. O simples fato de terem compactuado com tal prática já é moralmente abominável. O texto se limita a provar que a escravidão não foi criação do “homem branco” – afinal a muito tempo o homem branco é que era a vítima, com disse acima.

Enfim, quem escravizava os negros e os entregavam aos “homens brancos” eram os próprios negros, conterrâneos e os portugueses realmente não entraram África adentro caçando negros. A afirmação corriqueira de que o Bolsonaro ou seus “seguidores” precisam “estudar história” não passa de um chavão, retórica sofista, repetida por pessoas que uma vez ao ano leem algum livro ao estilo “Harry Potter” e, quando muito, fazem algum cursinho pra ascender à estabilidade de algum cargo público.


Revolução, Arte e Civilização

 



Conforme discorri em um artigo escrito há algum tempo, sobre a importância da verdadeira cultura e seu impacto na sociedade, a deturpação daquela causa efeitos danosos nesta, levando à desordem e à destruição do tecido social. A arte é a responsável por formar o imaginário popular, é a expressão da alta cultura que reflete no povo e o forma. Poderíamos dizer que a cultura geral do país decorre de uma elite intelectual que forma as massas, coisa que no Brasil de hoje não possuímos.

A influência da arte é tamanha que ela é amplamente utilizada para fins de engenharia social. Para implantar agendas ideológicas vemos fomentos à eventos artísticos ideologicamente alinhados à uma causa em específico. Se quer implantar o aborto, por exemplo, promova eventos artísticos que avacalhem com os valores morais neste tema, dessensibilizando a sociedade, sendo que, dessa forma, uma futura manobra legislativa neste sentido não seja frustrada por pressão popular contrária.

Para ilustrar o caso em tela com um exemplo real cito o testemunho do Maestro Dante Mantovani, que relata o seguinte: "Estive em Buenos Aires há 14 anos atrás visitando teatros e museus. Em absolutamente TODOS museus que visitei , mesmo os mais tradicionais, havia exposições sacrílegas. 14 anos depois, o aborto é aprovado na Argentina. Eis a prova do que vivo falando em minhas palestras, cursos e livro: a Arte é ponta de lança da revolução progressista, e através de suas várias manifestações produz a mudança de mentalidade necessária à aceitação do inaceitável. É por essa razão que não estou surpreso, e por esta mesma razão é que tenho dado prioridade absoluta à tentativa de elevar o gosto artístico e o senso estético no Brasil. Infelizmente sou ainda uma voz que clama só no deserto, mas ainda assim não vou esmorecer, porque a beleza que Deus concedeu à humanidade através das Artes do Belo, em especial da Música, dão poderoso testemunho do esplendor de Sua Glória, das Suas Verdades e nos ensina o que nunca poderemos aceitar. Portanto, caríssimos, tenham claro que não venceremos a batalha pró-vida sem vencer antes a batalha estética!" (Via Facebook).

Curiosamente manifestações parecidas tem sido incentivadas no Brasil. Fica evidente o motivo, desconstruir. É a essência da revolução ser contra a ordem e, por consequente, o Belo, para a mentalidade revolucionária a arte não passa de uma ferramente para engenharia social, não há valor do que seja belo ou feio (bem como não há valor do que seja bom ou mal, ali impera o relativismo). Vale ressaltar, que a arte desordenada, por assim dizer, afeta também no campo da criminalidade, isso fica evidente ao vermos letras que cantam à desordem e a desobediência moral pela simples barbárie.

O interesse revolucionário na desconstrução do Belo vem do fato de que a arte é um dos elementos civilizacionais, logo, se querem destruir a civilização ocidental a arte é um dos elementos que serão desconstruído - juntamente com a família, religião e etc. O Belo é um valor que está intimamente ligado com o valor do que seja Justo (bem ou mal) que estão, por sua vez, ligados à Verdade; negar um deles é negar a todos, se não existe beleza objetiva, também não há como saber o que é bom ou mal e, muito menos, o que é Verdade e tudo vira "matéria de opinião", chegando ao ponto em que o povo não consiga mais diferenciar um Homem de uma Mulher objetivamente sem se perder em discursos ideológicos e chavões grupais.

Como disse o Maestro supracitado "a arte é a ponta de lança da revolução", é através dela que, sutilmente - ou nem tanto, vai se introduzindo no imaginário do povo certas mentiras que, de tão batidas, acabam se tornando "verdades". É um processo lento e árduo a fim de destruir a civilização e  acabar com a inteligência de todo um povo para construir no seu lugar uma nova sociedade, administrada e subjugada.

A primeira adoração

     Hoje, celebramos a Epifania do Senhor, e eu gostaria de fazer uma breve meditação sobre esta passagem do Evangelho. Quando os três reis...